Quarta-feira, 11 de Abril de 2007
A Profecia da Água

Quando as duas luas ficaram à mesma altura, em posições opostas no céu vermelho, foi possível observar em pormenor o objecto voador que parecia aumentar de tamanho à medida que se aproximava, estendendo a sua sombra pelo deserto. Tinha sido essa sombra que chamara inicialmente a atenção dos sentinelas para a ocorrência de algo fora do normal e os fizera dar o alarme.

            O chefe e alguns caçadores saíram das habitações escavadas na terra e juntaram-se aos sentinelas. Nos últimos tempos, o aparecimento de corpos estranhos no céu parecia confirmar as ideias daqueles que acreditavam na existência de vida noutros planetas. Contudo, ninguém sabia se isso seria um motivo de alegria ou de receio.

            Primeiro, uma bola de fogo explodira durante a noite sobre terrenos de caça e lançara pedaços de metal em todas as direcções. Depois surgira uma máquina que se deslocava, fazia pequenos ruídos e engolia terra; alguns dos que a observaram à distância consideraram-na um ser vivo durante certo tempo, mas depressa se verificou que aquilo não possuía sentidos nem pensamentos e não irradiava o calor próprio dos vivos. Apesar destas conclusões, todos os que se aproximavam da máquina sentiam-se observados por ela e ficaram satisfeitos quando uma rocha mais saliente provocou a sua queda e o seu silêncio.

            Desde então, eram muito poucos aqueles que não esperavam a visita de viajantes do espaço. Decerto seriam criaturas dotadas de grande inteligência, pois de outra forma não conseguiriam construir máquinas tão complexas. O maior problema dos chefes das várias cidades era definir a atitude a tomar durante essa situação, pois as intenções dos visitantes tanto podiam ser altruístas como letais, e as suas reacções perante qualquer gesto seriam de difícil previsão.

            O objecto que viam agora apresentava uma forma mais estranha que os anteriores. Aterrou num local onde não existiam construções, e foi imediatamente rodeado pelo caçadores. Momentos depois, uma parte dele deslocou-se e surgiu um dispositivo mecânico que girava lentamente sobre si mesmo e deixava em todos a desagradável sensação de estarem a ser observados. Em seguida, começou a emitir sons agudos, que feriam os ouvidos e levaram o grupo a afastar-se um pouco; era possível distinguir vários tipos de sons, que pareciam ser parte de um padrão que se repetia e que podia ter um significado. Não seria difícil decifrá-los, mas ninguém os suportaria durante tempo suficiente para alcançar esse objectivo.

            Ao longo de dois dias, grupos de cientistas e caçadores jovens, incluindo os filhos e as filhas do chefe, foram ver a máquina vinda do espaço, levando consigo comida e água para aqueles que, pacientemente, esperavam que algo acontecesse. A pergunta que todos faziam era se aquilo transportava ou não seres vivos. Com os seus sentidos apurados, o chefe já detectara a existência, no seu interior oco, de corpos que se moviam, irradiavam calor e apresentavam contornos bastante estranhos, mas não revelou os seus pensamentos.

            Quando por fim a porta se abriu e quatro visitantes saíram lentamente para o exterior, o sentimento geral foi, sobretudo, de surpresa. Aqueles seres eram muito diferentes de tudo quanto os contadores de histórias alguma vez imaginaram. Eram bastante altos. Tinham apenas dois pares de patas e deslocavam-se utilizando o segundo par; certamente possuíam mecanismos específicos para a manutenção do equilíbrio exigido por essa forma de locomoção. Como seria de esperar, existiam mãos na extremidade do primeiro par de patas mas, em vez de quatro dedos iguais, distinguiam-se cinco dedos de tamanhos diferentes, com uma disposição anómala. Envergavam uma espécie de vestuário que, para além das mãos, apenas deixava a descoberto a cabeça, sendo esta a parte do corpo que mais facilmente permitia distinguir cada uma das criaturas; contudo, apesar das diferenças, em todas se observavam dois olhos em posição superior, uma abertura, que devia corresponder à boca, em, posição inferior e, na zona central, uma saliência singular, com duas aberturas, cuja função era difícil de imaginar; existiam também duas estruturas laterais achatadas, com um relevo peculiar, dispostas em locais opostos. O resto da cabeça estava coberto por filamentos estranhos, de cor variável; assemelhavam-se às estruturas existentes em certas plantas, que se destacavam para produzir novas plantas, e a hipótese de servirem para o mesmo fim nestas criaturas era um pouco assustadora. Não tinham escamas nas porções do corpo que estavam visíveis e, nesse aspecto, faziam lembras as criaturas pequenas, viscosas e desprovidas de inteligência que viviam permanentemente debaixo da areia; contudo, estes seres que construíam máquinas para viajar no espaço não podiam deixar de possuir uma inteligência superior. A pele exposta à luz era clara em todos eles, com excepção de um que apresentava uma cor mais escura, não se observando poros para detecção de substâncias químicas no ar ou de variações de temperatura. O ouvido, caso existisse, não era visível, tal como sucedida com o sexo de cada um. Uma vez no exterior da nave, mantiveram-se imóveis durante alguns instantes, limitando-se a mover a cabeça para ver o mundo onde se encontravam. Os seus pensamentos eram indecifráveis e as suas acções imprevisíveis.

            O chefe estava perante uma situação delicada. Se as intenções dos visitantes fossem hostis, era provável que eles transportassem consigo armas terríveis e, por isso, deviam ser mortos antes de terem oportunidade de causar qualquer mal. Porém, se fossem pacíficos, atacá-los seria um crime que atrairia uma maldição para a tribo e cobriria de vergonha os seus antepassados. Com prudência, elaborou um gesto de saudação que todos consideraram adequado e que colocava os estranhos numa categoria algures entre os chefes das outras tribos e As Forças que faziam o mundo ser aquilo que era, mas os estranhos continuaram a olhar à sua volta como se não tivessem reparado na honra que lhes era dada. Um deles usou a boca para emitir sons agudos e desagradáveis. Se essa fosse a sua forma de comunicar, deviam ter um ouvido algures para se escutarem uns aos outros, mas seria impossível compreendê-los. Após algum tempo, o visitante deve ter-se apercebido disso, pois parou de fazer ruído e voltou-se para os seus companheiros.

            Outro visitante avançou, dobrou as patas traseiras de modo a colocar-se à altura do chefe e, com a ponta de um dedo, fez na terra um conjunto de traços: primeiro marcou um ponto pequeno; seguiu-se uma pausa durante a qual repetiu várias vezes o mesmo som, e depois acrescentou nove circunferências mais ou menos concêntricas, cada vez maiores; por fim, apontou insistentemente para a terceira dessas nove e emitiu um som diferente. Tudo isto devia ter um significado; talvez representasse algo que os visitantes consideravam importante. Sentindo-se incapaz de decifrar o desenho, o chefe ordenou a um cientista, o qual se mantivera afastado, que se aproximasse e observasse tais linhas.

            Esse cientista, que era irmão de ninhada do chefe, obedeceu e absorveu de imediato a ideia que eles queriam transmitir. Se o centro do desenho representasse a estrela em torno da qual girava o planeta deles e se cada linha fosse a órbita de um planeta, talvez eles tivessem vindo do terceiro planeta a contar da estrela. Era uma hipótese aceitável. Confiante, o cientista fez um segundo esquema: um ponto para assinalar A-Estrela-Da-Vida, uma circunferência para O-Planeta-Pequeno, outra para O-Nosso-Mundo, mais larga para que este se destacasse, e ainda outra para O-Planeta-Grande. O visitante que fizera o primeiro desenho mexeu a boca e a cabeça, de uma forma que podia ser uma demonstração de alegria, e todos os outros se aproximaram para comparar as marcas na terra. O chefe sentia-se profundamente satisfeito, pois fora dado o primeiro passo para a compreensão mútua.

            Um dos visitantes tocos na mão do cientista e apontou para o objecto voador. Através de gestos com as mãos e os braços, convidou-o a acompanhá-lo e a atravessar a porta que ficara aberta. Com um pouco de receio, o cientista assim vez e transmitiu aos outros tudo o que viu. Lá dentro encontrava-se outra criatura, ao lado da qual observou com atenção materiais desconhecidos e instrumentos bizarros. Existiam superfícies lisas e brilhantes, que no seu conjunto mostravam a imagem do chefe e dos outros membros da tribo, sendo possível distinguir os sinais de nervosismo que alguns deles não conseguiam reprimir. Correu na direcção da porta, para se certificar de que eles continuavam no local onde os tinha deixado e não tinham sido aprisionados no interior daquela máquina fantástica. Depois acalmou-se e compreendeu que havia um mecanismos que reflectia imagens do exterior naquelas superfícies; provavelmente era por isso que se sentiam observados. Olhou mais uma vez à sua volta antes de se decidir a sair. Subitamente, pressentiu a existência de água armazenada a um canto, mas não transmitiu esse pensamento devido ao receio de estar errado. Quando regressou para junto do grupo, aconselhou o chefe a retribuir, recebendo os visitantes dentro das casas e mostrando-lhes os mais recentes resultados do progresso da Ciência naquele planeta. O chefe acedeu e, imitando os gestos que eles tinham utilizado, pediu-lhes que o seguissem.

            Desta vez, os visitantes entenderam de imediato. Apesar de dois deles permanecerem junto às máquinas, os outros três puseram-se em marcha. Pela forma como caminhavam, cada um pisando com frequência as sombras dos outros, era fácil deduzir a inexistência de um chefe entre eles. Nenhum verdadeiro chefe permitiria que outros se colocassem à sua sombra, com excepção dos seus irmãos de ninhada e das suas filhas. Os primeiros eram antigos companheiros dos tempos de infância e juventude. Por sua vez, as filhas estavam destinadas a garantir a sua sobrevivência quando fosse velho. Além de se tornar incapaz de obter o seu próprio alimento, qualquer chefe, à medida que envelhecia, começava a ser alvo de ataques por parte de alguns dos seus descendentes do sexo masculino, os mais fortes de cada ninhada, desejosos de ocuparem o seu lugar; a ambição e o instinto de matar sobrepunham-se a outros sentimentos. Nas fêmeas não se observava tal comportamento. Enquanto chefes de tribos menores, após terem um certo número de descendentes, optavam por matar à nascença todos os restantes, a maioria dos chefes preferia encarregar-se das filhas logo após o seu nascimento, educando-as e assegurando-lhes vários privilégios, entre os quais o consumo diário de uma maior quantidade de água. Assim, criava-se uma relação muito forte entre o pai e as filhas, de forma a que, anos mais tarde, estas caçassem para ele e o defendessem dos ataques dos próprios filhos até que ele morresse de velhice. Então essas fêmeas partiam e dispersavam-se por outras tribos, onde constituíam família.

            Ao fim de algum tempo, um dos visitantes, aparentemente fatigado, abrandou o passo e agarrou num pequeno objecto que transportava à cintura. Com os seus sentidos apurados, o chefe detectou a existência de água no seu interior e por isso não ficou tão surpreendido como os restantes quando viu a criatura erguê-lo à altura da boca e beber alguns goles. Todos os caçadores pararam de caminhar e olharam fixamente para aquela criatura. A quantidade de água que acabara de ingerir era superior à dose diária a que cada um deles tinha direito.

            Consciente do espanto que tinha despertado, o visitante parou e exibiu o recipiente. Em seguida, inclinou-o e deixou cair água sobre a terra. Todos ficaram chocados com tal atitude. A água, essencial à vida e cada vez mais rara, era o bem mais precioso que se podia ter; devia ser retirada da fonte com respeito, armazenada com cuidado e distribuída criteriosamente por cada membro da tribo. Segundo a tradição, o chefe era aquele que tinha como principal função impor a ordem através do estabelecimento de regras para o consumo da água. Derramar água propositadamente era o mesmo que cometer um crime, pois a água perdida podia, no presente ou no futuro, salvar a vida de algum que tivesse sede. Criaturas inteligentes que mostravam desprezo pela água não podiam ser boas e não eram dignas de viver.

            Com o consentimento do chefe, três caçadores preparavam-se para atacar o visitante quando este, inconsciente do perigo que corria, se dirigiu a um deles, uma jovem fêmea, e agarrou-lhe amistosamente numa mão, sobre a qual colocou uma quantidade apreciável de água. Tal atitude era completamente inesperada. Tudo indicava que lhe estava a oferecer água, e isso era o maior sacrifício que alguém podia fazer. Que tipo de criatura se podia dar ao luxo de oferecer água a outra que não pertencesse à mesma espécie?

            O chefe sentiu-se confuso e a caçadora tomou a iniciativa de provar, mesmo sem autorização, a água transportada de outro planeta; verificou que possuía um sabor ligeiramente diferente daquela a que estava habituada, mas não deixava de ser água, e estendeu a mão na direcção do chefe para que ele também bebesse. Nesse instante, as lendas antigas que falavam de eras em que a água caía do céu afloraram à memória comum dos habitantes de O-Nosso-Mundo e geraram uma perturbação que não passou despercebida aos visitantes. Esses tempos de abundância sempre tinham sido considerados uma fantasia dos contadores de histórias, apesar de um número cada vez maior de cientistas defender a hipótese da existência, num passado longínquo, de massas de água na superfície do planeta e de extensos corpos gasosos que, quando submetidos a certas condições ambientais, se condensavam, lançando gotas de água sobre a terra.

            Havia também uma profecia, feita por um louco que via imagens do futuro reflectidas na água, segundo a qual voltaria a cair água do céu quando a Primeira Cidade regressasse à vida, muito tempo depois de morrer. A Primeira Cidade era a mais antiga rede de habitações conhecida; tinha sido construída à superfície mas, devido a uma série de tragédias registada em pormenor nas pedras, foi considerada um local amaldiçoado e abandonada; o louco permaneceu lá, sozinho, escrevendo nas paredes a história da sua cidade e as suas próprias profecias, até morrer de sede. As ruínas acabaram por ficar imersas no deserto até que, dias antes do primeiro objecto voador ser visto a rasgar o céu, uma violenta tempestade de areia as deixou a descoberto, expostas à admiração dos arquitectos e à curiosidade dos cientistas. Os mais cépticos não tinham acreditado na profecia, mas a maioria da população sonhava desde então com o dia em que ela se realizasse. Por seu lado, o chefe receava a chegada desse dia, pois a abundância da água tornaria certas leis desnecessárias e os valores fundamentais da civilização seriam abalados. Porém, a profecia acabara de se cumprir: a água do espaço, transportada por aquelas criaturas, podia ser considerada água caída do céu.

            Após um momento de profunda admiração, a ideia de atacar os viajantes desapareceu sem deixar vestígios. O que ofereceu a água emitiu várias vezes o mesmo som e desenhou linhas na areia. O chefe compreendeu que aquilo significava “água” e desenhou o símbolo correspondente, usado em todas as tribos. Em seguida, o visitante voltou a beber e fez um som diferente, acompanhado por novos traços, mas dessa vez não foi compreendido. Para a espécie com que tentava comunicar, “água” e “beber” eram conceitos indissociáveis. A resposta do chefe, após tentar sem sucesso transmitir-lhes os seus pensamentos, foi um série de símbolos relacionados com o precioso líquido: “água pura”, “água salgada”, “água no solo”, “água armazenada”, “água em movimento”, “água parada”, “água fria”, “água quente”, entre outros.

            Foi a vez de os visitantes se mostrarem confusos, o que despertou simpatia por eles, pois indicava que a sua inteligência também possuía certos limites. O chefe não insistiu em fazê-los entender de imediato o significado de todos aqueles símbolos e incitou-os a prosseguir a caminhada. Eles foram conduzidos ao compartimento mais confortável da rede subterrânea de habitações, onde recusaram a comida que lhes ofereceram, provavelmente porque não tinham fome, mas aceitaram um brinquedo infantil que uma cria atrevida lhes entregou, sob o olhar aterrorizado da mãe. Um grupo de cientistas levou-os a ver os complexos sistemas de captação e concentração de água retida nas profundezas do planeta, as máquinas que extraíam água dos restos de alimentos regurgitados, as fábricas de conservação de alimentos e de produção de vestuário, os laboratórios onde eram sintetizados medicamentos e, em último lugar, as mais recentes inovações tecnológicas relativas ao estudo do movimento das estrelas e dos planetas. Apenas ocultaram as armas de defesa da tribo, pois as intenções dos visitantes ainda eram desconhecidas. Os cientistas sentiam-se orgulhosos por poderem apresentar os resultados das investigações realizadas ao longo de gerações, mas temiam que aquelas criaturas encarassem o seu trabalho como uma brincadeira de crianças tolas. Os visitantes pareciam interessar-se por tudo o que viam, utilizando sons e sinais para chamarem a atenção uns dos outros para diversos pormenores. Quando o ar arrefeceu e o céu ficou escuro, foram conduzidos a um espaço para dormir, mas preferiram regressar à superfície e passar a noite dentro da sua máquina.

            Durante os dias seguintes, os visitantes dedicaram-se a construir algo à sombra das rochas, despertando ainda mais a curiosidade dos arquitectos. Estes acompanhavam todos os seus movimentos e, após observarem a forma como vários instrumentos eram utilizados, decidiram ajudá-los, com o fim de decifrar os seus objectivos e a sua forma de pensar. Os visitantes não esperavam tal atitude, mas aceitaram-na. Era surpreendente constatar que dois tipos tão diferentes de mãos podiam ser igualmente eficazes na execução de determinadas tarefas.

            Entretanto, vários cientistas analisaram amostras de água que eles ofereciam e concluíram que ela continha os elementos essenciais, podendo assim ser consumida em substituição da água natural do planeta. Além disso, dois desses elementos existiam em concentrações superiores ao normal, o que era susceptível de aumentar a duração da vida de cada indivíduo.

            Satisfeito com a forma como os acontecimentos se sucediam, o chefe, por intermédio dos seus filhos, enviou mensagens para as outras tribos, pedindo-lhes que não se aproximassem dos visitante. Utilizou uma linguagem respeitosa para disfarçar as ameaças. No futuro, se não fosse possível evitar uma guerra pelo controlo dos reservatórios de água, seres de outro planeta, possuidores de uma tecnologia mais avançada, seriam aliados poderosos; tornava-se desejável evitar que tivessem contactos com outras tribos.

            Para surpresa de todos, os visitantes partiram logo que deram por terminado o processo de construção a que se tinham dedicado arduamente. Distribuíram água em quantidades que talvez não tivessem importância para eles, mas que eram significativas para os habitantes do planeta onde se encontravam, e entraram no objecto voador, que libertou um calou muito intenso ao erguer-se no ar, cada vez mais alto, até desaparecer no céu. Porém, a estrutura por eles abandonada talvez constituísse uma indicação de que pretendiam regressar. Os arquitectos achavam pouco provável que se destinasse à habitação de futuros visitantes, pela simples razão de não haver espaço. Por seu lado, os cientistas defendiam que a maioria dos objectos arrumados no interior da estrutura tinham uma função bem definida, não estando destinados a permanecer aí, mas sim a ser utilizados pelos futuros visitantes com objectivos diferentes.

            Algum tempo depois, quando  água oferecida pelos visitantes já tinha sido consumida, surgiu um objecto voador diferente do anterior, que aterrou no mesmo local. Transportava cinco criaturas, sendo três delas desconhecidas, e uma caixa transparente contendo uma grande quantidade de água. Desta vez, um visitante reparou na saudação do chefe e respondeu com uma imitação desajeitada. Durante os dias que se seguiram, essa criatura inteligente e amistosa conviveu com membros de todas as classes da tribo e aprendeu o significado de muitos símbolos, ao mesmo tempo que ensinava aqueles que eram utilizados no seu planeta; a dedicação de ambas as partes a este processo acabou por permitir a comunicação entre elas, através da escrita de frases rudimentares em qualquer um dos dois sistemas de símbolos. Entretanto, os outros visitantes mantinham-se relativamente distantes e realizavam estranhas experiências com os objectos que tinham sido abandonados no interior da construção.

            Quando um caçador velho morreu, eles pediram autorização ao chefe para levar o cadáver, pois queriam mostrar um ser de outro planeta aos restantes membros da sua espécie. O chefe acedeu e os familiares do velho mostraram-se orgulhosos por ele ser o primeiro a viajar no espaço com os visitantes, apesar de estar morto. Provavelmente, os visitantes dissecariam o seu corpo e aprenderiam muito a nível de anatomia interna e fisiologia; talvez retribuíssem revelando os fenómenos biológicos que mantinham a vida nos seus estranhos corpos. Quando eles partiram, a esperança na amizade e na cooperação entre duas civilizações de planetas diferentes era maior do que nunca. A água que tinham oferecido era consumida regularmente.

 

            Um dia, a caçadora que experimentara em primeiro lugar a água vinda do espaço sentiu que a sua gravidez não estava a desenrolar-se de forma normal. De facto, as suas crias nasceram mortas e com horríveis deformações. Este acontecimento entristeceu toda a tribo e, por isso, foi prestada pouca atenção aos sinais de senilidade que um grande número de velhos começou a apresentar quase simultaneamente. A maioria só se apercebeu de que algo de errado se passava quando outras fêmeas deram à luz crias deformadas, mortas ou com poucas hipóteses de sobrevivência. Foi então que um cientista teve a ideia de procurar na água substâncias eventualmente tóxicas; fez as análises em segredo, utilizando a sua dose diária, para que não o considerassem louco ou algo pior se os seus receios fossem infundados, e detectou um elemento desconhecido, que incluiu na alimentação de organismos usados em experiências laboratoriais. Poucos dias depois, verificou que os mais velhos e os mais jovens de entre estes apresentavam sintomas de envenenamento; nos órgãos essenciais dos que morreram encontrou lesões devidas à acumulação do elemento em causa. A água que prolongava a vida produzia efeitos secundários mortais.

            Após a divulgação desta descoberta, muitos recusaram-se a acreditar que a água oferecida pelos visitantes estivesse envenenada. Desde o início da civilização, a ideia de matar um ser vivo desse modo nunca tinha surgido. Isso seria um crime inqualificável e as criaturas de outros planetas certamente pensavam da mesma forma. Se, por exemplo, elas tencionassem ocupar o planeta e dizimar os seus habitantes, seria preferível o uso de armas poderosas que causassem rapidamente a morte em vez da realização de várias viagens para transportar água envenenada. Além do mais, os visitantes também bebiam aquela água; não o fariam se nela tivessem introduzido veneno.

            Contudo, após a morte de alguns velhos e da filha mais nova do chefe, estes argumentos tornaram-se menos convincentes. Talvez o veneno não produzisse qualquer efeito no organismo dos visitantes. Também não era impossível que eles tivessem um tipo de raciocínio completamente diferente e que, nas suas mentes, esta maneira de matar fizesse sentido. Ninguém pensou que os visitantes podiam desconhecer os efeitos que a sua água iria causar. Os esforços de produção de um antídoto, por parte dos cientistas, revelaram-se infrutíferos. O chefe disse que ninguém devia continuar a beber a água envenenada mas, se a próxima época de seca fosse rigorosa, seria necessário desobedecer para não morrer de sede, uma vez que a atenção prestada aos reservatórios de água normal diminuíra desde o primeiro encontro com os visitantes. Foram enviados mensageiros com pedidos de socorro dirigidos aos chefes das outras tribos, mas nenhum deles se mostrou disposto a ceder as suas reservas de água.

            Quando o objecto voador surgiu novamente no céu, os adultos mais fortes já tinham começado a perder escamas e a sua pele desprotegida apresentava feridas e queimaduras causadas pelas radiações malignas da estrela que iluminava o planeta. Tinham dificuldade em respirar e sabiam que os danos nos seus órgãos internos lhes causariam a morte. A única coisa que sentiam era um intenso desejo de vingança. Escondidos atrás das rochas, assistiram à aterragem e ao aparecimento de seis visitantes, dos quais apenas um, aquele que anteriormente revelara grande interesse em saber o significado dos símbolos, era conhecido. Eles devem ter entendido, quando os caçadores moribundos avançaram e os cercaram, que algo tinha mudado. No instante em que se aperceberam de que iam ser atacados, os seus movimentos denunciaram surpresa, medo e talvez inocência, mas os seus destinos já estavam traçados.

            Os caçadores lançaram-se sobre eles e cravaram as garras na sua pele; descobriram que o sangue deles também era vermelho, mas esse facto, que noutras condições lhes causaria grande emoção, não os deteve. Os gritos dos visitantes eram horríveis mas, por momentos, um som sobrepôs-se a todos os outros. Um sétimo visitante permanecera no interior do objecto voador e estava agora junto à porta segurando uma arma que, com enorme estrondo, deitava por terra os caçadores, um a um. Porém, foi incapaz de abater todos aqueles que imediatamente avançaram na sua direcção e não conseguiu fechar a porta que o separava do exterior a tempo de impedir a entrada dos caçadores. Estes arrastaram-no para junto dos outros e prosseguiram a matança.

            Os corpos dos visitantes foram despedaçados e a água que transportavam no interior do objecto voador foi derramada sobre eles. Todas as suas máquinas foram destruídas. Quando já não restava nenhuma forma de vingança, os caçadores prestaram a devida homenagem aos seus companheiros mortos e regressaram às suas casas. Apenas o chefe ficou, olhando para o céu. Não estava satisfeito: a morte daquelas criaturas fora demasiado rápida; não tinham sofrido o suficiente pelo seu crime. Mas apesar da sua raiva, sabia que isso não era importante, pois nada impediria o seu povo de morrer. As outras tribos tomariam conhecimento do que se passou e, com o tempo, os seus contadores de histórias inventariam lendas acerca disso; a não ser que outros visitantes surgissem, em maior número e com armas mais poderosas, decididos a matar todos os membros da espécie. Era impossível prever o futuro. Contudo, sentia que nada do que pudesse acontecer tinha importância; para ele e para a sua tribo, o futuro já não existia.

 



publicado por planiciemetalica às 16:14
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1 comentário:
De bonecatenebrosa a 12 de Abril de 2007 às 17:21
Bom, espectacular!
Gostei da história em geral e do final em particular. Digno de filme, principalmente se o realizador for o Night Shyamalan (não sei se escrevi bem, mas duvido que ele me chateie por isso).
Fico à espera de mais ficção científica de qualidade.


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